Toda renúncia entrega poder ao outro, mas, no amor, dá mais poder aos dois.
— Emerson Batista (@emebatista) abril 16, 2012
Blog do EmeBatista
Sou, nascido que fui, vivendo talvez, morrendo no fim. Não sei quem não sou. Contigo, talvez, um pouco de mim.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
NUM RUFLAR DE ASAS
Coincidência
tem poder de convencimento arrebatador; é a voz do acaso sussurrando os fatos. São
verdades imediatas driblando os sentidos. Não é à toa que ganhador de loteria
vira celebridade. Aquela pessoa foi escolhida para receber recompensa de um
esforço que não teve, quebrando a lógica do merecimento.
Há
coincidências que me dão certezas que se manifestam através de arrepios. Não
tenho dúvidas sobre uma brisa fria quando ela chega, não duvido quando me
impressiono testemunhando uma boa ação na rua, ou quando ouço uma poesia que me
cala. Meus arrepios servem como parabólicas apontadas para o inusitado, o que
meus olhos fotografaram, os arrepios revelam.
Há situações
em que preciso deles para prestar atenção às coisas, como estas que narrarei. É
fato verídico. Se tentar explicar demais, será mentira, por isso contarei
apenas esta verdade que me resta. Prometo exagerar nas omissões das impressões,
focarei no que importa naquela estrada vestida de cansaço e luz.
Depois de
quase quatro horas de estrada, cansei de ler e-mails, cortar unhas e das
músicas bregas que ouvia no CD. Passei, então, a zapear entre rádios para
manter meu pensamento ocupado.
Eis que surge,
do meio do chiado, uma voz explicando sobre os anjos. Ouvi bastante sobre
anjos, arcanjos e serafins, então me dei conta de que eu devia ter um ótimo
anjo da guarda. Lembrei-me do meu acidente do qual saí praticamente ileso; do
cinto de segurança metafísico que me manteve neste mundo.
Voltando ao
programa, em determinado momento o locutor, pastor, ou sei lá o que, dizia que
todos nós temos anjos da guarda que nos acompanham. E afirmou:
- É
importante, meu amigo, minha amiga, que você conheça seu anjo da guarda. E ele
tem um nome.
Neste exato
momento em que aquele tipo de pastor da nova Era dizia a palavra “nome”, meu
carro passava diante de uma placa de trânsito indicando a direção da cidade de
“São Miguel Arcanjo”.
Anjos de
verdade não se apresentam. Neste caso, foi assim também. Meu sinal foi no arrepio
que veio do ruflar das suas asas. Não sei ainda se estava indo ou voltando, mas
nossos caminhos se cruzaram para sempre.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
A Fofolete
Sim, eu já tive uma fofolete. As pessoas têm confissões a
serem feitas ao próprio passado, o meu é a minha fofolete azul esmaecido roubada
de uma lata de lixo na calçada. Por certo, alguma garota a trocou por uma Barbie.
Esta não, ela veio sem nome. Livre para ser herói, ou heroína, nos meus
teatros. Um personagem bebê. Talvez o fato de me considerar salvador da
bonequinha minimizasse a vergonha por deixar de lado meus carrinhos de madeira para
dar voz àquele ser careca e olhos azuis esbugalhados. Salvando-lhe a vida,
fiquei-lhe escravo da memória.
Fomos
companheiros em inúmeras tardes de aventuras pela horta e pelo quintal. Ora
voava até o limoeiro, ora mergulhava na poça da chuva. Projetava meu corpo
naquele fantoche de sonhos que pensava viver. Seu corpo era de pano preenchido
por bolinhas de isopor, o que fazia a minha heroína adaptada a diversos
desafios, especialmente aventuras aquáticas. Absorto em tarde à sombra da
parede embolorada, surgiam momentos sem enredo, sem vilões; contemplações de
bolha de sabão enquanto soprava com a boca as tormentas marinhas na bacia em
que minha mãe colocava de molho as roupas de verão.
Com o tempo, veio o total desbotamento
no azul do seu corpo. O suposto rosado em seu rosto já beirava o amarelo dégradé.
Depois de diversas primaveras, a fofolete passou o inverno inteiro na gaveta
junto com as meias. Aos poucos me dei conta de que ela não envelhecia; teimava em
se esconder entre as flores, enquanto eu já conseguia subir no limoeiro.
Quando veio morar comigo, já estava
desgastada, de forma que não a vi nascer, mas comigo ela viveu o suficiente
para não morrer de novo. Não me recordo qual foi o seu destino. De volta à lata de
lixo? Talvez esteja até hoje no ovinho de onde veio embalada. Quem sabe?
Não houve despedida, não houve choro. Será que não está aí na sua gaveta?
Neste instante, o arrepio de inverno me percorre a espinha. Há o que existe agora, e depois não existe mais. Não se pode ignorar as pequenas lembranças, pois cantam como pássaros
raros no coração das matas. Podem cantar uma vez na vida, e nunca mais.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Serenata na Janela
Meu primeiro instrumento
musical foi um cavaquinho de segunda linha. Ganhei-o de Natal, pois, segundo
meu pai, era adequado à minha idade, altura e mais barato que o violão que eu havia
pedido. A primeira opção tinha sido uma
sanfona, mas não dava conta nem de segurá-la. Na impossibilidade do desejo
original realizado, mantive o cavaco por anos, satisfeito apenas em sentir o
cheiro de madeira empoeirada que vinha de dentro da sua caixa acústica e o
estranho poder que me trazia.
Antes dele, eu tinha um
estúdio musical: desde sempre havia sido um latão de 50 litros dentro do qual cantava
para mim mesmo, supondo que o eco produzido amplificava meu som como se fosse
uma caixa acústica. Tive meu palco naquele latão vermelho por muitos anos, até que
a ferrugem me expulsasse e eu não coubesse mais ali dentro.
Jamais aprendi a tocar meu
cavaco. A única vez que fora afinado, por bondade do senhor Tirabosco, um vizinho quase
centenário que era violeiro, ele o ponteou algumas vezes para que eu soubesse o
som que tinha. Percebi que havia gastado seus únicos acordes e ponteios naquele
momento para me mostrar o instrumento. Por gentileza, não pedi que tocasse mais
nada. Além disso, ele estava no crepúsculo da vida e vaticinou com galhardia:
- Pronto, agora vai
tocando que você aprende sozinho.
Por alguns instantes, acreditei
que aquilo poderia acontecer, mas a música não se deixa domar facilmente. É
necessária dedicação e submissão aos seus tempos, encantos e compassos. Como na
vida, nossos instrumentos precisam estar afinados para que a música nos venha
encontrar. É como na história do jardim
que atrai as borboletas. Apenas muito tempo depois, finalmente meu pai me deu o
violão que me acompanha até hoje e com o qual consigo dialogar razoavelmente
bem.
Aquelas quatro cordas do
cavaquinho jamais foram minhas. Ainda
assim, era o único dos garotos da vizinhança a ter um instrumento musical.
Embora não soubesse usá-lo, desde sempre cantava. Assim, meu cavaquinho marfim
se tornou meu parceiro mudo nas galopeiras que eu cantava a quem suportasse ouvir.
Hoje percebo que nunca tive
grande apreço pelo ouvido alheio: falo alto, rio alto, canto alto, uma
lástima! Dessa forma, não tocar meu
cavaquinho desafinado era o mínimo de favor que eu fazia aos ouvintes.
Perto da minha casa, no
alto da mesma rua, havia uma igreja evangélica. Todas as noites, após os
cultos, a família do pastor descia unida e passava defronte à casa amarela cujo
vitrô da sala dava para a rua. Linda família, linda filha cujos negros cabelos
brilhantes e lisos ouriçavam minha vontade de aparecer de alguma forma. Nunca vi seu rosto, apenas a silhueta. Pensei em pendurar
alguma melancia na cabeça para ser notado; quem sabe algum ato heroico enquanto
eles passavam em frente de casa pudesse chamar a atenção de Carminha?
Certa vez, percebi que, lá
do alto da rua, Carminha descia com a família. Abri a janela da sala e saí com
o cavaquinho em mãos, pernas balançando do lado de fora, instrumento empunhado
corretamente, ferindo levemente as cordas para emitirem o menor som possível.
Sentado no parapeito da janela aberta, comecei a cantarolar músicas da época
para quem passasse na rua. Foi minha primeira experiência, digamos, com o público.
Cantor de janela e cara de pau. Era uma serenata ao contrário, a musa estava lá
fora. Cantei até o fim, até que Carminha e sua família tivessem virado a
esquina. Até então, minha maior intimidade era saber-lhe o nome.
Quando passaram por mim, foram mais devagar, expressavam que estavam gostando. E foi nesta noite que meu cavaquinho se afinou para sempre dentro de mim. Não me recordo de um som que tenha emitido, mas todos agora soam divinamente. Talvez tenha até tocado de fato naquela noite. Quem vai saber? Lembro apenas que, ao final da esquina, ela olhou para trás e sorriu; talvez tenha sido a maior despedida, ou maior conquista que tive na vida.
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terça-feira, 5 de julho de 2011
Uma Vida a Lápis
Corre tinta nas minhas veias, por isso desenho meus sonhos no ar.
Tentava disfarçar o nervosismo manuseando o material escolar. O cheiro do caderno recém-encapado misturava novidade, angústia e amarelo-canário. Não notava nenhuma diferença entre as doze cores dos lápis; tinham cheiro de arco-íris. Lançava o olhar enviesado aos colegas que ostentavam caixas de 24 ou até 36 cores. Mas esse momento durou até ser interrompido:
- Classe! Atenção! A partir deste ano vocês começarão a copiar a matéria da lousa com a caneta esferográfica azul. Se errarem, coloquem entre parênteses, façam um risco e continuem o texto. As provas também deverão ser respondidas a caneta. Entendido?
Depois de mais algumas instruções, e minha dúvida sobre para que afinal serviam os parênteses, virou-se para o quadro negro, que de fato era verde, e sumiu da minha memória.
Ansioso, empunhei minha espada para duelar em azul escuro com o espaço em branco. A partir daquele instante, não mais o lápis de grafite que se permitia arrependimentos, agora a caneta gritava minhas palavras como tatuagens no caderno. Apagar lápis colorido já não era possível, mas agora cada resposta decretava sua forma absoluta e definitiva. Esferograficamente, frases marchariam obstinadas em busca dos pontos finais sem tropeções. Logo nas primeiras palavras, percebi: tinham cheiro de tempo.
Também logo nas primeiras linhas, um erro. Na verdade, vários. Não, nada de backspace. Pensa que era fácil assim? E de nada adiantava molhar a ponta da borracha com saliva; no máximo, furava a folha do caderno e evidenciava o erro. Com um pouco menos de sorte, afetaria até a folha de baixo.
Inocente vingador, o lápis-borracha era o candidato a me salvar, mas parecia um jagunço vestindo armadura medieval: nunca chegava a ser usado, tamanha sua ineficiência na tentativa de apagar o que a caneta escrevia. Borrava mais ainda! Às vezes, eu usava o apontador no coitado para renovar suas pontas intactas, ou seria o seu orgulho?
Clandestinamente, obtive um frasco de uma droga chamada “líquido corretor”. Inutilmente, aquilo só pintava de branco meus erros e me tonteava pelo cheiro de solvente. Emoldurava e dava brilho ao que se pretendia esconder. Quanto maior o trecho a apagar, mais compensava jogar fora a folha inteira. Fui me desesperando e vendo que nada me restava a não ser deixar de errar, ou então deixar de tentar corrigir. Obviamente, nestes casos, pequenos enganos negligenciados receberiam o colorido de tinta vermelha da correção da professora. Algumas vezes, dava para se notar que eram corrigidos às pressas, dada a presença de giz na folha almaço devolvida.
Após jogar muitas folhas fora, notei que era preciso escrever com a caneta pensando que fosse lápis; era preciso pensar em preto e branco para lembrar a cores. Mas, entre uma coisa e outra, sempre vinha o coração e borrava tudo de novo.
De lá para cá, só escrevo poemas a lápis. Faço pequenas anotações a tinta: telefones, lembretes, endereços. Depois de muitos anos, percebi que a caneta no caderno tende a borrar sozinha, o lápis a se apagar sozinho, a folha a amarelecer. Ou seja, o que existe definha, dentro ou fora de nós. O que parecia definitivo se encanta pelo efêmero. Aliás, que tempo estranho é esse que não vai amarelecer nossos e-mails como fez com nossas cartas de amor?
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sexta-feira, 6 de maio de 2011
O Contador de Histórias
- Pai, lembro-me de quando você chegava em casa tarde, eu corria para saber como tinha sido o seu dia - perguntou minha filha Natália, no auge dos seus doze anos. Você dizia que tinha matado leões no seu trabalho, que estava exausto. Eu acreditava mesmo que era verdade, acha? Lembra que uma vez você chegou e me pôs no colo, contou que tinha matado dois leões e um dragão no mesmo dia?! Lembra-se da história dos ciclopes? Eu pensava: puxa vida, meu pai é mesmo demais.
- Lembro sim, filha. E hoje você acha que foi mentira?
- Não pai, eu acho que foram histórias.
Este foi um diálogo devastador. Deixei de ser herói matador de leões para ser um contador de histórias. Talvez todo contador de histórias cultive certo heroísmo para manter vivo seu enredo até o fim. O enredo é uma espada que a palavra empunha para abrir caminho pela floresta da imaginação. A história que não termina carrega consigo o estandarte da terra estranha que a memória habita.
Lembrei-me dos meus oito anos. Chegava o domingo e meu pai tentava descansar. Importunava-lhe os ouvidos para construir uma casinha para o cachorro vira-lata. Ele grudado no rádio de pilha e eu queria ouvir quantas toneladas de cana ele havia cortado. Dizia ele que deixava até os mais jovens da turma para trás. Não era um cortador de cana qualquer. Herói precisa do improvável, da superação. E era mais fácil entender toneladas de cana do que leões. Ele anotava essas informações em papéis de pão, como provas das suas façanhas nos canaviais. Um dia meu pai desistiu de anotar tudo isso. Só escrevia lista para a despesa do mês e o resultado do jogo do bicho. Recebeu um certificado de instrutor de corte de cana e pendurou na parede. Fiquei com medo de perguntar o motivo.
No ritual da infância, a expectativa era sagrada. Não havia essa coisa adulta de desistir dos pequenos desejos em nome dos grandes projetos. Projeto de vida é um sonho com chance de dar errado; e isso não passa pela cabeça da criança. Até hoje espero minha casinha de cachorro.
Atualmente, é o meu pequeno Gabriel de cinco anos que precisa das minhas histórias, desta vez sobre dinossauros. Não digo mais que matei leões no trabalho, porque isso nem é politicamente correto. Não sei se falar de animais extintos me dá maior vantagem, porém sua mente é faminta por confrontos de gigantes. E assim será até o dia em que se der conta de que o tempo vem como asteroides implacáveis para extinguir seus dinossauros de agora. Pelo menos nestes novos enredos, os bichos brigam entre si, poupando esse velho herói.
- Pai, conta de novo a história do tiranossauro rex pra mim? Se ele brigar com o carnotauro, quem vence, hein pai? Pai!!!!!! Não vai responder não?
Nisso a Natália volta para a conversa:
- Pai, o ciclopes tinha um olho ou dois?
- Um olho só, filha, um só.
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quinta-feira, 31 de março de 2011
Aviões de Papel
O roteiro era bem conhecido, e todo roteiro conhecido é uma prisão. De dia, auxiliar de escritório; de noite, estudava em escola pública. A casa era numa espécie de sítio dentro da cidade e voltar para lá sozinho na escuridão me fez um grande colecionador de faroletes. Uma pequena luz no meio da noite pode não nos proteger dos perigos, mas faz dos vaga-lumes nossos companheiros.
A rotina seguia, ao chegar da escola, ligava a televisão em preto e branco, que levava um tempo enorme para lhe surgir a imagem. Dava tempo de ir para a cozinha fuçar o que sobrou da janta. O silêncio da casa em que todos dormiam era meu quintal, meu parque de diversões. Sentia que naquele momento é que começava, de fato, o meu dia. Para muitos, era momento de descanso, para mim, começava o divertimento. E foi assim que me apaixonei pela noite, e foi ela que me apresentou à madrugada.
A casa não tinha forro. Dava para ouvir a chuva cair desde as primeiras gotas, o assovio do vento que flauteava suave, ou até sentir no rosto a brisa fria quando havia goteiras naquele ar úmido que invadia desde as janelas barulhentas. A jabuticabeira na janela do meu quarto fazia sombra, mesmo à noite. Sombra do sol, da lua, das estrelas. Sombra da chuva.
Quase todas as noites, o roteiro era assim. Mas houve um dia diferente que jamais esqueci.
Meu pai, já deitado e ouvindo rádio sertaneja, dizia:
- Desliga a televisão e vai dormir!
- Já vou, já vou, pai! (Eu precisava saber as notícias do dia. Via todos os telejornais. Era preciso saber que hoje era aquele dia.)
Passava um tempo, e ele:
- Se eu for aí desligar essa televisão, você vai ver só!!!
- Tá bom, pai! (Era uma resposta automática, nem pensava para falar.)
Algum tempo depois, já no quarto, ligava a luz para ler e escrever. Nunca sabia direito o quanto era necessário ler para depois escrever, na dúvida, eu fazia os dois. Porém, como os quartos não tinham forro, iluminava também o quarto ao lado, de quem? Dos meus pais. E o roteiro seguia, após mais algum tempo, do outro lado da parede, eu ouvia:
- Desliga essa luz aí, rapaz! Às quatro e meia eu tenho que levantar para ir para a roça e você não me deixa dormir.
- Estou lendo, pai! Já vou. (E nada de desligar.)
Do outro lado, parece que a parede gritava junto:
- Lendo o quê!? Vai estragar as vistas desse jeito!
- Já estou acabando, espera mais cinco minutos. Tá?
E mais uma vez, o ultimato:
- Se eu tiver que levantar da minha cama e ir aí apagar essa luz...!!!!!!!!!!!
- Tá bom!!! Affffff
Sempre que perguntava aos meus pais o motivo de dormir, a resposta era que precisamos acordar no dia seguinte. Ou seja, dormir para acordar. Dormir sempre foi uma espécie de morte pela sedução; o sono, uma espécie de veneno que a consciência nos faz provar. Jamais me rendi totalmente à escuridão que me toma pelas mãos até o dia seguinte. Todo despertar me faz renascer e a madrugada era minha trincheira.
Desligava a luz, acendia as velas. Começava minha atividade clandestina. Minha alma clandestina sobrevivia iluminada na penumbra. Sim, eu tinha maços e maços de velas, já que meus faroletes não davam conta de iluminar os livros e revistas que eu teimava em ler. Sob a luz de velas, as letras faziam sombra e dançavam. Era uma espécie de texto vivo.
Para desespero de qualquer primogênito, ter quatro irmãos menores que fuçavam meus papéis me tirava do sério. Todos os dias meus poemas em folhas soltas eram rasgados ou feitos bolinhas para guerrear. Por causa disso, busquei uma forma supostamente segura de guardar meus segredos. Montei uma caixa, colando os cartões perfurados de loteria esportiva na qual meu pai jogava semanalmente. Os comprovantes se acumulavam pelas gavetas da casa. Maços e maços de esperanças adiadas. (Talvez o maior mérito do jogo seja entorpecer a esperança até a próxima rodada.) Mas para mim serviram de cofre camuflado onde passaria a guardar meus textos, meus faroletes, minhas estrelas, meus amores não-correspondidos.
Certa madrugada, ainda tremulava a última vela sobre a escrivaninha quando percebi que iluminava menos, e menos, e menos... O sol vencia a guerra e começava a invadir o quarto pela janela. Os galos anunciavam que eu estava perdido. Dali a alguns minutos era eu que teria que ir trabalhar sem ter dormido.
Havia sido seduzido pela madrugada, que me havia segurado em seus braços, à luz de velas, como uma amante exigente e irresistível que me consumia até as últimas energias. E depois fugira do meu quarto nos primeiros raios de sol, deixando-me sozinho. Vencido, guardei meus papéis no cofre encantado e fui enfrentar o dia dos mortais.
Trabalhei normalmente pelo menos e, enquanto voltava para casa, já estava totalmente envenenado, cambaleante. Esperava me entregar à escuridão do sono como quem precisa morrer urgentemente. Por sorte, ou azar, naquele dia não havia aula. Às sextas-feiras não havia aula por decisão unânime da mediocridade.
O sol já saía de cena e borrava de vermelho o horizonte. Já dava para ver a minha casa e os pequenos brincando no quintal. Chegando no portão, veio o menor:
- Tato, valeu pelas folhas! (E lançou um aviãozinho de papel.)
- Que folhas? (Falei enquanto já acompanhava o voo.)
Pelo quintal, muitos outros aviõezinhos de papel. Meus poemas todos enfim ganhando vida? Alguns feitos barcos de papel, quem sabe por fim conhecendo o mar? Sem forças de reclamar, olhei para o lado oposto àquele onde o sol se punha. A noite erguia seu manto negro engolindo meu olhar. O ciclo cumpria seu ritual, mas nesta noite a madrugada teria que esperar.
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domingo, 6 de março de 2011
Onde Nasce o Azul
A primeira lembrança em cores que tenho foi de um desfile de carnaval. Os foliões desciam pela rua principal da cidade dançando entre confetes e serpentinas. Eu acompanhava tudo nos ombros de meu pai, encantado e apavorado com os mascarados e palhaços. Alguns tinham nariz quase maior que o rosto, um sorriso desenhado que parecia protegê-los contra a tristeza. As fantasias eram bordadas com paetês coloridos, de modo que a luz refletia e se espalhava. A música, ou o ruído, tremia meu corpo todo e parecia que não deixava ninguém parado. Uma gente feliz à toa. Vinham sorrindo perto da calçada onde o povo se aglomerava para vê-los passar. Alguns faziam malabares, outros simulavam fazer mágica. Assim, desde pequeno eu começava saber que alegria era coisa rara; tinha até desfile.
Subitamente, notei um palhaço azul brilhante. Ele se aproximou da corda que separava o público do desfile. Era como se um artista pulasse de dentro da televisão:
- Vem aqui, menino! Vamos dançar! É festa!
Ele não esperou minha resposta.
- Vai, filho. Falou minha mãe, apressada.
Tentei me segurar em meu pai. Puxei-lhe os cabelos e quase lhe furei os olhos. Em vão. Fui logo levado entre os foliões. Eu só parava de chorar enquanto procurava meus pais para onde direcionar meus apelos. Vendo que eu me desesperava, rapidamente o palhaço me devolveu à plateia. Todos riam, eu chorava. Muitas pessoas não entendem que a festa é dentro da gente que tem que ser; tem festa dos outros que pra gente é tortura.
- Filho, não chora não, é carnaval. Olha lá o palhaço!
Minha mãe me pegou no colo e chacoalhava como quem soubesse dançar e consolar ao mesmo tempo. Mães não sabem consolar e a gente não entende a dança delas. Só de raiva, fechei os olhos e fingi dormir. Criança dormindo nunca era acordada para caminhar. Vim acordado de olhos fechados, lembrando o desfile de carnaval. Trouxe o azul comigo.
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sábado, 26 de fevereiro de 2011
ROSTOS DA ESTRADA
Desci do carro para esticar as pernas. Viagem longa precisa ter um meio, e aquele posto me pareceu propício. Adoro lugares estranhos, pessoas diferentes. Nisso, rodoviárias e aeroportos são um paraíso. Procuro ver nos rostos efêmeros o máximo de história que o brilho dos olhos me possa oferecer. A cada piscar de olhos, tiro fotografias entrecortadas de seres que muito provavelmente jamais verei. Enfim, alegremente:
- Oi, boa noite! Tudo bem? Por favor, um misto quente.
- É para viagem?
- Não.
Minutos depois:
- Quem pediu o misto?
- Foi este senhor aqui, disse ela.
Sim, aquele senhor era eu! E olha que nem cabelos brancos eu tenho ainda. Fui anunciado à minha realidade sem pudor algum pelas jovens atendentes de um posto de beira-de-estrada. Logo eu que me achava abençoado pela síndrome de Peter Pan, levo um soco na cara desse jeito! Nem ao menos perguntou quantos anos eu tinha e me mostrou a ficha de inscrição no clube dos tiozinhos. Não tive dúvidas e me vinguei:
- Olha mocinha, mudei de ideia, por favor, embrulha aí que eu vou levar.
- Sim, senhor! (Que ódio! Pensei).
O mínimo que eu poderia fazer era dificultar o trabalho dela, já que ela tinha acabado com a minha viagem. Normalmente a sinceridade inocente é muito mais cruel que a ofensa. É diferente do adversário que fala para agredir, a espontaneidade mostra a realidade como quem vê fotos e relata o que vê. Porém, ao dificultar o trabalho de quem havia sido sincero demais comigo, dificultei minha volta para casa.
Tentei comer o meu misto dirigindo. Que lástima! Tentava engolir minhas memórias de infância que antes pareciam tão próximas e agora me haviam sido afastadas. Autoimagem demora a envelhecer, precisa mais do que espelho, precisa do alerta dos outros.
- Vrrrrrrrrrrrrommmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm.
Passa um caminhão do meu lado. O carro até balança. Que bagunça aqui dentro! Pareço um periquito espalhando farofa na gaiola. Desisto do lanche. Ou dirijo, ou como. Volto aos meus pensamentos tentando não perder a atenção na estrada.
Pista simples é como a vida: não se tem segurança nas ultrapassagens. Malditos caminhões! Perco um tempão antes de ultrapassar dois deles de uma vez. Nem pude ver a paisagem ao lado.
A viagem nem está perto de terminar. A noite cai e os faróis ainda nem iluminam a escuridão, são como as estrelas do céu. Neste lusco-fusco me disfarço e protejo na velocidade. Atravesso verdadeiras florestas negras e meu olhar tenta se aprofundar nas copas das árvores que me cumprimentam enquanto passo. Penso que vi de relance uma raposa atravessar a pista. Foi salva pelo desencontro.
Logo em seguida, vejo na distância faróis que cruzarão meu caminho. Prefiro os vermelhos da traseira aos brancos da dianteira. Faróis brancos são encontros dos quais sempre esperamos fugir. Quantos são? Dois? Não, são quatro! Êpa! Onde esconderam o acostamento desta estrada? Lembro novamente da cena acontecida no posto, temo que não haja mais acostamento na minha vida. Ufa, os carros passaram! Xingo em silêncio em oração por estar vivo. Para celebrar, ligo o som. Músicas de todos os tipos e épocas. Isso me transporta. Preciso de memórias para me ocupar melhor com o presente e assim ele passa melhor.
Entro na garagem de casa, desligo o motor e respiro fundo. Mais uma epopeia de riscos e insanidades. Vem correndo meu filho e diz:
- Paaaaaaaaaaaaiiiii como você demorou, hein! Vem brincar comigo?
- Claro! Pode escolher: Lutinha? Futebol?
- O que você trouxe pra mim? Parou em algum posto?
- Não, filho, eu vim direto.
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Cair para Cima
Como num quadro denso, seduzindo o olhar, consciência é esse eu que fica sentado atrás da retina, assistindo o que vejo. Uma imagem 3D, sempre com um nariz no meio, às vezes, através dos óculos. Sorte de quem tem nariz pequeno, pois o meu sempre atrapalha os cantos das imagens. Ver o mundo sempre foi uma experiência estranha para mim. Às vezes, oscilava o pensamento entre tempos verbais: o futuro do pretérito e o futuro do presente. Todos os tempos verbais são imperfeitos. O Tempo nos quer indefesos. Por isso, o adiamento é a ilusão de que o tempo age por nós.
Nas crises de pânico da adolescência, o sintoma comum era perder noção do peso do meu corpo, ficar como que flutuando ao vento e me restringir à experiência de ouvir a própria respiração e filmar os lugares pelos quais ia passando, pintando o quadro na minha paisagem interior. A minha voz parecia que não saía de mim, e sim de uma caixa de som em algum lugar indeterminado. O pânico era o medo da morte, e para ela eu deveria estar preparado.
Sempre me inquietei para entender o que é estar vivo. Primeiramente, busquei a solução religiosa que me levou a um seminário por dois anos. Além dos ritos e conhecimentos bíblicos, lá dentro, quando estudei superficialmente Kierkegaard, Nietzsche e Sartre um mundo novo e desencantado saltou aos meus olhos. De repente, a divisão entre mundo, céu e inferno entrou em colapso no meu Apocalipse. Era necessário me situar na existência sem recorrer a fórmulas prontas ou alucinógenas. Com o tempo, fui vendo que a gente nunca perde o vício, só vai mudando de droga. E de tanto abstrair meu espanto, muitas vezes me pego ainda rezando antes de dormir por medo de não acordar no dia seguinte. Aliás, nem seria possível acordar morto. No máximo, chegaria ao fim do sonho sem saber o final.
Certa vez, eu caminhava por um descampado repleto de capim barba-de-bode após uma geada. A ventania dobrava os feixes e os retorcia como ondas em um lago revoltoso. Dava a impressão de um oceano amarelecido feito só de areia. Como nunca tinha visto um campo de trigo, também servia para dar algum glamour tal semelhança. E pensava: “Que sensação deliciosa!” Era um cheio-vazio. Cercado pela ventania, eu me sentia caminhando sobre as águas, sobre o vento. Foram tantos momentos em que precisei ter os pés no chão que sentia necessidade de voar, ainda que nas asas do vento.
Zaaaaaaaaaaaaaap! Caio para cima. Agora, de olhos abertos, revivo as cenas. Estou na minha tempestade de vento novamente em meio ao capinzal de barba-de-bode. Corro para o horizonte, o sol foge e o capim chicoteia minhas pernas. Estou envolvido num redemoinho que me puxa o pensamento às alturas das nuvens. O peso do meu corpo é menor do que o dos meus pensamentos. Lembro-me das pessoas que amei na vida, estão todas comigo, são tudo o que levarei daqui. Aliás, o tempo não volta, ele é correnteza, só se entrega para o oceano.
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domingo, 20 de fevereiro de 2011
Sete Vidas
Depois de esperar a chuva passar, corri até meu carro na volta para casa. Estava estacionado numa espécie de gramado que cresceu num terreno baldio ao lado do escritório da empresa. Qual não foi minha surpresa ao encontrar Tom, meu gato perdido há mais de 10 anos em outra cidade, escondendo-se da chuva debaixo do meu carro. Logo que me viu, fugiu silenciosamente e sumiu no meio do mato baixo. Fui atrás, molhei a barra das minhas calças e as enchi de carrapicho, em vão. Ainda liguei minha câmera para tentar vê-lo novamente e provar que era ele mesmo. Em vão, logo que desliguei a câmera ele reapareceu, porém já longe, em seus malhados brancos e pretos. Entremeou-se em uma moita densa e distante. Não tive dúvidas que era ele que veio me trazer algum sinal, ou levar embora o que restava dele em mim.
* * *
Para conhecer a história de Tom, leia http://despoema.blogspot.com/2010/10/telhados.html
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terça-feira, 18 de janeiro de 2011
NENHUM PARAÍSO?
A agonia não tem perfume, é uma flor de plástico. Sempre mantive certa distância daqueles que eu acreditava estarem à beira do fim. Não queria me sentir, nem de longe, próximo daquele momento. Depois do inevitável acontecido, defendia a grande ceifadora com argumentos de que havia chegado a hora, enfim, e que todos teríamos a nossa vez.
A morte sempre possui advogados de defesa e atenuantes. Se alguém era velho, chegou seu momento; se era jovem, Deus o quis com ele assim; se foi num desastre natural, foi uma fatalidade; se era bêbado, evaporou no álcool; se fumou, foi tragado pelo vício; se se suicidou, foi covarde. Sempre há algum detalhe que supostamente causa o fato. Assim, morrer sempre exige uma explicação estúpida que acalme os que ficam. Por mais coerente que seja, cumpre apenas a função de anestésico social e psicológico.
Conforme os anos vão se passando e vou envelhecendo, mais contemporâneos meus pegam suas malas. Passou a ficar muito difícil manter a velha distância protetora de outrora. Cortar volta do estranho agonizante nem sempre é possível. Amigos e parentes estão na fila também. Alguns à minha frente, outros atrás.
Já segurei mãos firmes com olhos suplicantes tentando se prender à vida, pedindo que eu rezasse pela cura. Senti que sua retina me fotografava como últimos registros de uma viagem longa que teria nova etapa. Já segurei mãos quentes e fracas deixando-se levar pela correnteza de cansaço da vida esperando algum céu. A morte é a transformação do vivente em invólucro inerte de uma borboleta que já voou.
Ficam as lembranças das conversas que tive com a pessoa. Essas ganham asas, cores e saem em revoada para dentro de mim. A impossibilidade de repetir o diálogo o torna eterno. De alguma forma, essas lembranças me deixam sintonizado com essa pessoa em qualquer estado mental, espiritual ou energético, para além do colapso das células corporais. Estas conversas que recordo existem como tesouro que possui dois donos e fiquei incumbido de cuidar. Não deixa de ser mais um estúpido lenitivo para a dor que desejo evitar, porém permite que eu sobreviva navegando as memórias.
Aconteceu pouco tempo atrás, em meio a divagações sobre mundo espiritual, vida e morte. Alguém que amei, e com quem conversava e ria muito, pediu que, se um dia ela falecesse, eu cantasse “Imagine”, do John Lennon, em seu enterro. A punição, caso não cumprisse, era ter meus pés puxados à noite. Propus, então, um trato. Aceitei o desafio com a condição irônica de que ela nunca morresse. Cada um cumpriria sua parte no trato. Rimos muito na hora.
A sem graça, inesperadamente, não cumpriu sua parte e restou-me cumprir a minha. É interessante a música “Imagine” começar pedindo que “imagine que não há nenhum paraíso”. Afinal, será que pode haver outras realidades que fogem dos nossos modelos? Será que então ela despertou de um sonho do qual fui personagem? Pois bem, fechei os olhos, cantei para ela e tentei não imaginar que nada mais havia ali, nenhum paraíso que aprisionasse almas, mas que as libertasse.
Assim, mudou bastante minha relação com a “indesejada das gentes”, como diria Manuel Bandeira. No dia seguinte ao sepultamento, conversando com meus amigos que também estavam abalados pela perda, tomei coragem de tentar me consolar, explicando:
- Gente, ela continua viva, só que não está mais presa ao corpo, ela está livre.
Enquanto eu pronunciava a palavra “livre” a luz do quarto apagou sozinha, devido a algum mau contato do interruptor. Arrepiei-me na hora. Isso pode ter significado muita coisa, inclusive nada. Porém, neste caso escolhi acreditar que havia sido feito um contato, uma epifania para demonstrar que de fato, como diria Guimarães Rosa, a gente “não morre, fica encantado”. No caso, até arrisca umas interferências na rede elétrica para que fique todo mundo ligado na vida, enquanto a fila não anda.
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terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Pastor das Lembranças
Não tive só gatos e peixes. Na verdade, meu primeiro animal de estimação foi um cachorro chamado Puppy, um cão preto, vira-latas pequeno cuja fúria em defender o quintal o fazia famoso nas vizinhanças. Quando nasci, Puppy já era velho. Nunca foi um cãozinho de subir no sofá, receber cafunés. Era, sobretudo, um soldado leal. Balançava o rabo em continência, e só. E, enquanto o tempo me fazia de criança a menino, ele definhava em pulgas, carrapatos e dentes moles, ainda que não perdesse o brio de guardião da casa.
Não foram poucas vezes em que enfrentou e venceu cães que davam o dobro do seu tamanho. Gatos nem se aproximavam o nosso galinheiro. Estranhos no portão tremiam de medo da fera. Seu jeito de defender o espaço era inigualável. Capaz de se dar em martírio se preciso fosse. Sobreviveu a dois atropelamentos devidos ao seu esporte predileto: latir para rodas de carro. Essa coragem, essa indiferença com a morte fazia de Puppy um personagem marcante daquele tempo imemorial.
Puppy só atendia ao meu assovio.
Todas as memórias que tenho desta época são pastoreadas por aquele cachorrinho preto cor de carvão. Era ele que protegia todas as crianças do bairro dos temidos maleiros, andarilhos supostamente propensos a enfiar crianças num saco de estopa e as levarem para longe. Nada disso temíamos! Meu pai havia feito para ele uma casinha que mais parecia um castelinho, feito de tijolos velhos e barro seco. De lá, Puppy reinava soberano em cada canto do nosso quintal.
Certa vez, fomos, minha avó e eu, à cidade buscar o bolo do meu aniversário. Ele foi junto. Porém voltamos de perua, já que não dava para trazer na mão o bolo enorme confeitado com bolinhas coloridas e metalizadas. Foi uma grande bondade a confeiteira nos dar carona. Puppy não pôde vir junto, e nem fez menção a querer isso também. Fiquei desesperado ao deixa-lo tão longe de casa. Entendia aquilo como traição à nossa amizade. Ele nos tinha acompanhado a pé, ou patas, agora voltávamos de carro e ele não saberia voltar, pensei. Nisso minha avó me tranquilizou: “Filho, os cachorros sempre voltam para casa”.
Pois minha avó estava certa. Puppy voltou para a casa logo depois que chegamos.
Uma vez encontrei na areia da estrada de terra diante de casa um dente canino. E cão sem dente é igual rei sem coroa. Ninguém o leva a sério. O reinado de Puppy entrara, definitivamente, em declínio. Até mesmo as vacinas antirrábicas eram torturas em seu corpo velho e frágil. Via nos seus olhos o brilho do cansaço e da velhice. As moscas em seus olhos eram espantadas em movimentos agora suaves. Sua respiração ofegante, porém, não perdia a elegância de um lorde. Todos os dias eu rezava para que Deus não deixasse voltar para seu corpo os carrapatos que eu tirava no dia anterior. Mas Puppy não tinha disciplina, ia para o gramado e lá se enchia novamente daqueles companheiros sanguessugas. Acho até que já se acostumara a eles.
Puppy latia rouco na velhice, mas nunca teve tanta autoridade.
Adultos não entendem nada sobre o sofrimento das crianças e animais. Adultos não entendem nada nem sobre si mesmos, nem sobre velhice, nem sobre a vida, nem sobre a morte. Quando colocados na condição de juízes do sofrimento, agem causando mais dor. E foi naquela volta da escola que não encontrei mais Puppy no quintal:
- Fiuuuuuu, Fiuuuuuuuuuu, Puppyyyyyyyyyyyy!
- Puppy morreu, ele agora descansou – disse minha mãe, cabisbaixa.
- Morreu de quê, mãe? – disse eu, com voz embargada.
- Ele já estava velho e doente, filho. Você via que ele mal conseguia andar. Estava com sarna e os dentes já caíram quase todos.
- Mas onde ele está enterrado?
- Eu pedi para o lixeiro levar.
- Por quê? Por quê? Por quê? ...
Destino cruel para meu soldado ser levado como lixo. Muitos anos depois, minha mãe contou que Puppy não morrera naturalmente. Ela que havia decidido sacrificá-lo para poupar-lhe o sofrimento. Chamou a polícia e pediu para que disparasse uma bala naquela frágil cabeça. Assim, haviam abreviado sofrimento daquele nobre cavaleiro negro dos dentes bambos.
E agora? Sumiu na estrada de areia minha infância? Hoje me surpreendo ao ver Puppy em lembranças de épocas em que ele nem vivo estava mais. Mesmo memórias recentes, por vezes são invadidas por ele. Não sei precisar em que ano foi seu falecimento, nem quantos anos eu tinha na época. É como se ele continuasse a estar lá, ou aqui, pastoreando meus pensamentos e desfilando seu charme vagabundo. É só assoviar para que ele surja imediatamente. E tudo isso foi minha avó dizendo: “Filho, os cachorros sempre voltam para casa”.
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segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Antes do Amanhecer
O que é amar para sempre? No espaço de um encontro sem intervalos acontece “Antes do Amanhecer (“Before Sunrise”, 1995), que narra a história de Celine (Julie Delpy) e Jesse (Ethan Hawke). Celine voltava de Budapeste a Paris depois de visitar a avó. Jesse voltava para os Estados Unidos depois de estar na Espanha. O destino dos dois começa a se cruzar quando Celine se incomoda com um casal de alemães discutindo, muda de assento no trem e fica defronte a Jesse, que também tentava ler um livro. “Sobre o que eles discutem?”, pergunta Jesse, ela responde “Meu alemão não é muito bom”. Isso não foi à toa, pois quem descobre o amor perde a capacidade de entender desentendimentos. Entremeados a folheadas nos livros, protegem-se como escudo e revelam-se como íntimos.
Mas a viagem é curta. Jesse então convida Celine a não seguir viagem e os dois descem em Viena para juntos passearem nas poucas horas que possuem. Como dois anjos vasculhando cada pedaço de tempo que o céu lhes concedeu, percorrem cemitérios, parques e bares. O tempo urgente, a pressa de se entregar arrebata esses dois jovens que trazem o mundo dentro de si. Com certeza, um filme diferente e romântico que não pode faltar no repertório de recordações.
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terça-feira, 9 de novembro de 2010
P. S. Eu Te Amo
Afinal, existe amor além da vida? Não, não estamos falando de “Ghost”, mas de “P. S. Eu te Amo” (2007), com Gerard Buttler (Gerry) e Hilary Swank (Holly). Um casal perfeito, feliz, jovem e saudável, acometido por uma tragédia: a doença e morte de Gerry (Buttler). No entanto, o tempo de agonia serviu para que ele arquitetasse um plano para continuar ao lado dela por mais algum tempo. Através de um vídeo-tape e cartas periódicas, vindas pelo correio, com dicas a respeito de como viver a vida sem ele. Seria como se o carteiro do além.
Normalmente, os homens se veem no galã da história. Neste filme, logo de cara o vem à mente o poema “E se eu morresse amanhã”, de Álvares de Azevedo. É a expressão máxima do lema que diz: “até que a morte os separe”. Este contato com os limites da existência eleva ao limite a cumplicidade dos românticos.
“P. S. Eu te Amo” pede algumas caixinhas de lenços de papel, já que a emoção pode irromper indomável diante de um típico final feliz feito em pedaços logo no princípio. Gerry está presente durante todo o filme. Suas cartas a Holly continuam a chegar como lembranças vivas de um amor que o tempo jamais devolverá ao remetente. É um processo lento de redescoberta da vida, a prova de que o amor pode significar abrir mão de si em nome da felicidade de quem fica e paz de quem se foi.
P. S., ou “Post Scriptum”, em latim, significa: o que foi escrito depois do fim da carta. Assim, assistir o filme ao lado do seu amor mostrará o quanto significa o amor depois do fim, o amor que precisa ser recomeço para que não deixe de ser eterno.
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010
O Feitiço de Áquila
Dizem que os lobos e os falcões passam a vida toda com os mesmos parceiros. Neste filme, esta é a ironia que paira sobre a história. O amor pede pontualidade, olhos nos olhos, nem que seja por uma fração de segundos ao amanhecer. “O Feitiço de Áquila” (1985), ambientado na Idade Média, Navarre (lobo) e Isabeau (falcão) tomaram essas formas após uma maldição do bispo que fora rejeitado por Isabeau. Porém, ela se transforma em falcão durante o dia, ele um lobo negro quando o sol se põe. É fácil compreender a loucura do bispo rejeitado, trocado pelo chefe da guarda (Navarre), sendo Isabeau representada por Michelle Pfeifer no auge da sua beleza.
Assistir este filme com seu amor vai fazer com que vejam de forma diferente os momentos em que o amor precisar sobreviver às metamorfoses da vida. Muitas vezes desejarão ser um casal de falcões que voam livres sob o sol, desafiando o vento para onde apontem seus instintos, outras precisarão da fúria noturna dos lobos que irrompem às noites escuras clareando as florestas com seu olhar.
No mais, prestem atenção ao personagem Phillipe. Ele é o que encarna a poesia na história. A poesia é quem faz a fofoca entre os amantes, é quem semeia dúvida onde há certeza de derrota. Phillipe é o grande personagem do filme. Descubram o porquê a dois. “Impossível? Nada é impossível.” É o que sempre nos diz a poesia.
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